O que é o consenso na blockchain?
O consenso em palavras simples
Muitos participantes da rede guardam uma cópia da blockchain, e qualquer um deles pode enviar transferências novas. Mesmo assim, todas as cópias precisam ser iguais, com os mesmos registros na mesma ordem. As regras do consenso estão escritas no programa que os próprios participantes rodam, então cada um confere e aplica essas regras por conta própria. Elas também são chamadas de mecanismo de consenso.
Imagine vizinhos de prédio que mantêm juntos um caderno das despesas comuns, e cada um tem a sua cópia. Às vezes dois mandam anotações ao mesmo tempo, e alguém tenta lançar o mesmo pagamento duas vezes. Para os cadernos não ficarem diferentes, os vizinhos combinaram uma regra antes. Um deles por vez faz as anotações, os outros conferem e assinam, e a linha vale quando pelo menos dois terços dos vizinhos a assinaram. O mecanismo de consenso funciona assim, só que o acordo acontece entre muitos computadores que não se conhecem, e entre eles pode haver um trapaceiro.
Que problema o consenso resolve
O destinatário não tem como conferir sozinho se o remetente já gastou aquelas moedas antes, e normalmente essa verificação exige um centro de confiança1. No dia a dia, esse centro é o banco. Na blockchain não há centro, por isso os próprios participantes combinam qual de duas transferências das mesmas moedas chegou primeiro e recusam a segunda. A tentativa de gastar o mesmo valor duas vezes se chama gasto duplo.
O que acontece se dois blocos surgirem ao mesmo tempo?
Se dois participantes propõem blocos diferentes ao mesmo tempo, a rede passa a ter por pouco tempo dois ramos, ou seja, duas versões dos últimos registros. No Bitcoin, a disputa se resolve pela regra da cadeia mais longa. Os nós, isto é, os computadores com uma cópia da blockchain, consideram correto o ramo em que foi investido mais trabalho de cálculo, e assim que um dos ramos ganha o bloco seguinte, os outros nós passam para ele1. Por isso o último bloco ainda pode ser trocado, e os serviços esperam até que a transferência fique coberta por mais alguns blocos.
Quando uma transferência se torna definitiva
A transferência é definitiva quando, pelas regras da rede, já não pode ser anulada nem reescrita. Esse momento chega de forma diferente em cada rede, e é dele que depende quando a corretora vai creditar a sua criptomoeda.
- No Bitcoin não existe um momento definitivo em sentido estrito. Cada bloco novo acima do seu deixa a anulação da transferência mais cara, e a chance de ela acontecer cai rápido1. Por isso as corretoras creditam bitcoin depois de algumas confirmações, isto é, de blocos novos por cima da transferência, e cada corretora define quantas.onde consultar: regras de crédito no site da corretora
- No Ethereum, o bloco passa a ser definitivo depois de uma votação dos validadores. Em 24.10.2026, isso levava cerca de 15 minutos2.
- Na Solana, depois da atualização de outubro de 2026, o bloco se torna definitivo após uma ou duas rodadas de votação dos validadores3.
- No XRP Ledger, as versões novas dos registros costumam ser fechadas a cada 3 a 5 segundos4, e a versão validada é considerada definitiva5.
O que o consenso significa para você
O custo de enganar a rede também depende do consenso. Nas redes baseadas em cálculos, o atacante precisa da maior parte de todo o poder de cálculo; nas redes baseadas em garantia, da maior parte da garantia, que ele corre o risco de perder. O que um ataque desses consegue e não consegue fazer é tema do artigo mineradores e validadores.
O consenso cuida da ordem dos registros na rede. O acesso à sua criptomoeda é protegido pela sua chave, e se alguém roubar a chave, nenhuma regra de consenso vai parar o ladrão. O artigo o que é uma chave privada explica como guardá-la. Uma transferência feita por engano o consenso também não devolve, porque a registra com a mesma segurança que uma correta.
Que tipos de mecanismos de consenso existem
Os mecanismos de consenso diferem no que dá ao participante o direito de adicionar um bloco e no que ele perde se trapacear.
No Proof of Work, ou prova de trabalho, a vez de criar o bloco fica com quem resolver primeiro um problema difícil, testando uma variante atrás da outra. O peso do voto é o poder de cálculo, e o criador do Bitcoin chamou isso de princípio «uma CPU, um voto»1. Esse é o método do Bitcoin, e o artigo mineradores e validadores fala mais sobre os mineradores.
No Proof of Stake, ou prova de participação, esse direito vem de uma garantia feita com as próprias moedas. As regras escolhem em turnos o validador que vai montar o bloco, e quanto mais moedas ele tem em garantia, mais pesa o voto dele. É assim que funciona o Ethereum, que adotou esse método em 15 de setembro de 2022; depois da mudança, a rede passou a gastar cerca de 99,95% menos eletricidade6. A Solana também funciona com garantia, mas tem regras de votação próprias. Em outubro de 2026 elas foram atualizadas para que as transferências fossem confirmadas mais depressa3, e o funcionamento delas é explicado em detalhe no hub rede Solana.
Na rede XRP Ledger não há competição de cálculos nem garantia. As transferências são acordadas por servidores validadores, e cada servidor só leva em conta os servidores em que confia. Depois de algumas rodadas de comparação, eles chegam a uma versão comum dos registros5. O trabalho de validador não é pago, porque os próprios donos dos servidores precisam de uma rede que funcione de forma estável7. A moeda dessa rede se chama XRP.
Como o consenso difere nas redes Bitcoin, Ethereum, Solana e XRP Ledger
| Solana | XRP Ledger | |||
|---|---|---|---|---|
| O direito ao bloco vem dos cálculos? | sim | não | não | não |
| O direito ao bloco depende de uma garantia em moedas? | não | sim | sim | não |
| Há recompensa pelo trabalho? | sim | sim | sim | não |
| Quem desrespeita as regras pode perder a garantia? | não | sim | não1 | não |
| A transferência fica definitiva em segundos? | não | não | sim2 | sim |
Quem muda as regras do consenso
As regras do consenso são escritas pelos desenvolvedores da rede, e as novas passam a valer quando os participantes instalam a nova versão do programa. Quem só tem criptomoeda normalmente não precisa fazer nada; foi assim quando o Ethereum passou para a garantia e quando a Solana foi atualizada3. Se as regras novas forem incompatíveis com as antigas e parte dos participantes continuar com as anteriores, a rede pode se dividir em duas, como mostra o artigo hard fork.
Mais detalhes sobre a origem do problema e o funcionamento da finalidade
O problema é mais antigo que a blockchain. Em 1982, Leslie Lamport, Robert Shostak e Marshall Pease o descreveram como o problema dos generais bizantinos, que precisam combinar um plano comum mesmo que haja traidores entre eles11. O consenso resolve esse problema para uma rede aberta, em que qualquer pessoa pode entrar.
A passagem do Ethereum para a garantia, em 2022, é chamada de The Merge. No Ethereum, um bloco é definitivo quando votaram nele validadores que somam pelo menos dois terços de todas as moedas em garantia. Para anular um bloco assim, quem atacasse teria de perder pelo menos um terço da garantia total12.
Desde 21 de outubro de 2026, os validadores da Solana votam pelo sistema Alpenglow, no lugar do antigo Tower BFT. Ali o bloco é definitivo depois de uma rodada de votação se validadores com 80% da garantia votarem a favor logo de cara; se não, depois de uma segunda rodada. Com essa atualização, o relógio embutido da rede, o Proof of History, deixou de definir o ritmo dos blocos3.