Como lidar com os impostos das criptomoedas
O que preparar antes
Antes de fazer as contas, reúna num só lugar:
- o acesso às contas em todas as corretoras e serviços de troca que você já usou, inclusive aqueles em que não entra há muito tempo;
- os endereços das suas carteiras, com os quais o explorador de blocos (um site onde qualquer transferência fica visível) mostra todo o seu histórico; por que esses registros são públicos, explica o artigo o que é blockchain;
- os registros de onde veio cada cripto: compra, pagamento de um cliente, presente ou recompensa;
- os extratos bancários dos depósitos nas corretoras e dos saques de dinheiro;
- o endereço oficial na internet da autoridade fiscal do seu país.
Como lidar com os impostos passo a passo
Passo 1. Liste todas as operações com cripto
Comece por uma lista do que você fez com a cripto. Comprou com dinheiro, manteve, transferiu entre carteiras suas, vendeu, trocou uma cripto por outra, pagou produtos com ela ou recebeu cripto por trabalho. Entram também as recompensas de mineração ou de staking, ou seja, pela participação na verificação das transferências da rede, os presentes e os airdrops, distribuições gratuitas de tokens. Ponha na lista até as operações que, na sua opinião, não geram imposto. A autoridade fiscal avalia cada operação pelas regras dela, e uma compra esquecida depois impede o cálculo do lucro na venda.
Passo 2. Marque as operações que costumam gerar fato gerador
O fato gerador fato gerador é uma operação depois da qual pode surgir um imposto a pagar ou a obrigação de informar. Pense num objeto comprado numa feira. Enquanto ele fica na sua casa, você não ganhou nem perdeu nada com ele, por mais que tenha valorizado. O resultado aparece no momento em que você o vende ou o troca por outro objeto.
| Compra e manutenção | Transferência para si mesmo | Venda e troca | Recebimento de renda | |
|---|---|---|---|---|
| Costuma gerar fato gerador? | não1 | não | sim | sim |
| Precisa entrar no histórico de operações? | sim | sim | sim | sim |
| Precisa do valor em moeda local na data? | sim | não | sim | sim |
- Onde existe imposto sobre o patrimônio, a cripto pode entrar na base de cálculo mesmo sem venda, como acontece, por exemplo, na Argentina (mais na página criptomoedas na Argentina). ↩
Em geral, o imposto surge quando você vende a cripto, paga com ela ou a troca, mesmo que por outra cripto. Só alguns países isentam de imposto a troca de uma cripto por outra1 ⚖️. Nos EUA, por exemplo, são tributados tanto essa troca quanto o pagamento de um serviço com cripto3 ⚖️. Por isso, anote quanto pagou: o lucro é calculado como o que você recebeu na venda menos o preço de compra e as taxas3. Como vender cripto e sacar o dinheiro está em um guia à parte.
Renda é a cripto que você recebeu por trabalho ou como recompensa. Ela costuma ser avaliada pelo valor da cripto no momento do recebimento, mesmo que você não a tenha vendido3 ⚖️. A renda de mineração também é tributada pelas autoridades fiscais1 ⚖️. Como um freelancer pode receber pagamentos e o que anotar a cada um deles está no cenário sobre pagamentos a freelancers.
A valorização enquanto a cripto fica com você em geral não paga imposto de renda; é o que acontece, por exemplo, com pessoas físicas na Argentina4 ⚖️. Uma transferência entre carteiras suas, ou da corretora para a sua carteira, não muda o dono, e por isso normalmente não gera imposto3 ⚖️.
Ter um fato gerador ainda não significa ter imposto a pagar. A venda pode ter dado prejuízo, e em alguns países há isenções e limites para valores pequenos.
Passo 3. Reúna o histórico de operações
Para cada operação, anote:
- data e hora;
- tipo de operação (compra, venda, troca, transferência para si mesmo, recebimento de renda);
- qual cripto e quanto;
- valor em moeda local no momento da operação;
- taxa;
- a corretora ou o endereço de carteira usado e o hash da transação, isto é, o número da transferência na rede.
Um conjunto parecido é o que pede, por exemplo, a autoridade fiscal dos EUA: quando cada unidade de cripto foi recebida e vendida, quanto valia nesses momentos e o que você recebeu em troca3. O histórico da corretora sai mais fácil como arquivo baixado na área do cliente.
A cotação usada para converter em moeda local é definida pela autoridade fiscal.
Passo 4. Encontre as regras do seu país
Este guia de referência tem páginas sobre países, e cada uma traz uma seção sobre impostos, como criptomoedas na Argentina, criptomoedas no Brasil e criptomoeda no Cazaquistão. Para os outros países, a fonte das regras é uma só: o site oficial da autoridade fiscal. Conselho de fórum ou de grupo de chat não é fonte.
No site da autoridade fiscal, procure a resposta para seis perguntas:
- quais operações com cripto são tributadas no seu país;
- como se calcula o lucro quando as compras foram feitas a preços diferentes;
- se há isenções e limites;
- se é preciso declarar a própria cripto e as contas em corretoras estrangeiras;
- em que prazo e de que forma a declaração é entregue;
- por qual cotação a cripto deve ser convertida em moeda local.
Passo 5. Decida se vai declarar sozinho ou com um consultor tributário
Se as operações são poucas e o histórico está completo, em geral dá para fazer a declaração sozinho, seguindo as instruções da autoridade fiscal. Com um consultor tributário que entenda de cripto, você fica mais tranquilo nos casos complexos: muitas operações, renda e vendas no mesmo ano, staking, airdrops ou DeFi (serviços financeiros que funcionam como programas na blockchain), operações em vários países ou mudança de país. Leve para a consulta o histórico de operações e as respostas que encontrou nas páginas oficiais.
A autoridade fiscal fica sabendo das suas operações com cripto?
A cripto não é anônima para a autoridade fiscal. As transferências ficam registradas numa blockchain pública, e as corretoras verificam a identidade dos clientes, então um endereço de carteira pode ser ligado a uma pessoa. Os países também combinaram trocar essas informações. Assim como o empregador informa ao fisco o salário que pagou, os serviços de cripto, pelo padrão internacional CARF CARF, enviam à autoridade fiscal os dados das operações dos clientes, e ela os compartilha com as autoridades de outros países. Se o seu país está entre eles, confira na lista atualizada.
Como não cair em golpes com «imposto» sobre cripto
Golpistas se passam por órgãos públicos, exigem pagamento em cripto e apressam você para que não dê tempo de checar2. Daí a regra principal: não tenha pressa. Confira qualquer cobrança de «imposto» primeiro no site oficial do órgão, aberto por você mesmo, sem link de mensagem. Como esses golpes funcionam é explicado no artigo phishing e golpes.
Perguntas frequentes
Como calcular o lucro se a cripto foi comprada em momentos diferentes e por preços diferentes?
O que fazer se a corretora fechou e o histórico de operações sumiu?
É preciso pagar imposto se você só sacou o dinheiro da corretora para o seu cartão?
As recompensas de staking e a cripto de airdrop são tributadas?
Mais detalhes sobre a troca internacional de dados fiscais
O padrão CARF (Crypto-Asset Reporting Framework) foi criado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e pela lista dela o Brasil e o Cazaquistão se comprometeram a começar essa troca em 20276 ⚖️.